(Read full article in English here)
Os diamantes são eternos e os melhores amigos de uma mulher, segundo Marilyn Monroe. Em 2026, celebra-se o centenário do seu nascimento, precisamente no ano em que a Bowers & Wilkins apresentou, em Viena, as novas 801 D5. A coincidência não podia ser mais feliz.
Em 1999, visitei o Centro de Investigação da B&W, em Steyning, onde conheci John Dibb e Peter Fryers, que me mostraram, pela primeira vez, as B&W Nautilus 801 originais. Nessa altura, porém, ainda ninguém falava em diamantes.
Prof. John Dibb (esq.), Peter Fryers (cima dir.) and the B&W 801 Nautilus (Steyning, 1999)
Nota: para ler o artigo intitulado ‘In Utero’, consulte os três ficheiros PDF no final deste artigo.
Os Diamantes São Eternos (DN-Sons 2004)
No Museu Britânico
Em 2004, estive em Londres para a estreia mundial da primeira 800 Series Diamond, integrado numa delegação de cerca de 150 profissionais e jornalistas vindos de todo o mundo. Foi nesse evento, no Museu Britânico, que o diamante passou a fazer parte indissociável da história da Série 800, tendo publicado no DN/Sons um artigo intitulado precisamente ‘Os Diamantes São Eternos’ (abrir pdf no final).
A lendária Bowers & Wilkins Nautilus
Este ano, em Viena, tive a oportunidade de ouvir as 801 D5 numa sessão privada, na qual esteve também presente Laurence Dickie, o criador das extraordinárias Nautilus: as colunas que estabeleceram muitos dos princípios acústicos e mecânicos que ainda hoje fazem parte do ADN da Série 800.
Dickie não escondeu o seu entusiasmo, como se pode ver no vídeo abaixo. Eu também não. Acompanhando esta evolução desde 2004, reconheço que a melhoria da qualidade sonora de geração para geração nem sempre acompanhou o gigantesco investimento tecnológico — e o inevitável marketing hype.
Laurence Dickie, listening to the B&W 801 D5, in Vienna.
Laurence Dickie
Provavelmente não foi por acaso que Laurence Dickie, hoje na Vivid Audio — o mesmo homem que, há mais de trinta anos, desenhou as Nautilus sem se preocupar sequer se seria possível fabricá-las, quanto mais vendê-las —, estava na sala e ouviu as 801 D5 com um sorriso de aprovação. Quem mais qualificado do que ele para lhes dar o aval?
Assim, agora já posso afirmar que toda aquela tecnologia se traduziu, finalmente, em mais e melhor música. Nem sempre foi assim.
Evolução ou Revolução?
Não há dúvida de que cada uma das gerações D2, D3 e D4 foi sempre tecnicamente superior à anterior. E algumas das alterações foram verdadeiramente revolucionárias: Continuum, Aerofoil, Turbine Head, Reverse Wrap, suspensão Biomimetic e as sucessivas evoluções da Matrix.
A 801 original (1979) e as Nautilus 801 (1998)
A Saga das 801
As origens das 801 remontam a muito antes da chegada do diafragma de diamante. Em 1979, após quatro anos de investigação, John Bowers, que ainda tive o prazer de conhecer, lançou as primeiras 801, combinando princípios já utilizados nas DM6 — alinhamento temporal, uma unidade dedicada aos médios e Kevlar — com o tweeter montado no topo, visto pela primeira vez nas DM7.
Nascia assim uma arquitetura que, quarenta e sete anos depois, continua perfeitamente reconhecível nas atuais 801 D5. O diamante só chegaria vinte e cinco anos mais tarde.
1987 — As Matrix 801 sofreram a primeira grande transformação, abandonando a caixa selada em favor de uma configuração bass-reflex com pórtico frontal e introduzindo o reforço interno Matrix, que viria a tornar-se uma das tecnologias emblemáticas da marca.
1998 — Chegam as Nautilus 801. A Nautilus 800 Series trouxe profundas alterações à forma e às dimensões da caixa: o woofer das 801 cresceu de 12 para 15 polegadas e a unidade de médios passou de 5 para 6 polegadas, alojada numa cabeça de Marlan — um material sintético composto por minerais e resina.
2004 — Nasce o Diamante
A 17 de novembro de 2004, a nova série foi apresentada em simultâneo em Londres e Nova Iorque, constituindo a primeira grande revisão da Série 800 em mais de seis anos. O principal destaque era o tweeter com cúpula de diamante policristalino, produzido por deposição química de vapor, cujo primeiro modo de quebra só se manifestava acima dos 70 kHz!
Os cones em sanduíche passaram a utilizar um núcleo de Rohacell de 8 mm entre camadas de fibra de carbono; a unidade de médios manteve a tecnologia Kevlar FST, mas recebeu um novo motor de neodímio e um chassis melhorado.
A 800D, equipada com dois woofers de 25 cm, pesava uns respeitáveis 125 kg e reunia a cúpula esférica de Marlan, a Matrix, o Flowport e o tweeter tubular inspirado nas Nautilus. Até os condensadores do crossover utilizavam prata e ouro.
No papel, era irrepreensível. E, de facto, a série Diamond oferecia mais extensão, transparência e resolução. Mas reforçava também uma característica que voltaria a manifestar-se em gerações posteriores: aquele brilho nos olhos que iluminava algumas gravações com intensidade excessiva. A engenharia impressionava mais do que a música.
D2 — Aperfeiçoar sem Alterar a Fórmula
A geração a que hoje, retrospetivamente, chamamos D2 surgiu em 2010, embora oficialmente continuasse a ser chamada 800 Series Diamond. O tweeter de diamante passou então a abranger toda a gama, incluindo as 805.
O tweeter recebeu um motor mais eficiente com quatro ímanes; os woofers passaram a utilizar um sistema magnético duplo de neodímio para reduzir a distorção e melhorar a linearidade; surgiram novos terminais de cobre isento de oxigénio; e os condensadores Mundorf prata/ouro/óleo, anteriormente reservados às 800D, foram adotados em toda a gama.
As 800 Diamond estrearam ainda um cone de graves com estrutura em «cogumelo», que integrava cone, bobina móvel e tapa-poeira num conjunto mais rígido, bem como um novo motor destinado a melhorar o controlo e a dinâmica.
O grave ficou mais limpo e a gama média mais equilibrada, embora persistisse uma ligeira subida na zona de presença e uma ligeira elevação entre 7 e 15 kHz. A B&W continuava fiel a si própria — para o bem e para o mal.
D3 — 868 Maneiras de Começar uma Revolução
Em 2015, a Bowers & Wilkins passou da evolução à revolução, anunciando nada menos do que 868 alterações!
Na altura, escrevi que isso podia, ironicamente, levar um proprietário das D2 a pensar que tinha comprado umas colunas com 868 defeitos. Claro que não. Mas, desta vez, as alterações estruturais eram realmente profundas.
Depois de décadas de serviço, o Kevlar amarelo foi abandonado e surgiu o Continuum, desenvolvido ao longo de oito anos; os woofers de Rohacell deram lugar aos cones Aerofoil, cuja espessura é variável ao longo do perfil.
Nos modelos com unidade de médios separada, a construção em Marlan foi substituída pela Turbine Head, fabricada em alumínio; e o corpo do tweeter também passou a ser maquinado a partir de um bloco maciço de alumínio.
Nas 800, 802 e 803 D3, a B&W virou, na prática, a caixa do avesso com a Reverse Wrap: a curvatura passou para a frente e a união dos painéis para trás, onde uma grande espinha de alumínio aumentava a rigidez e servia, simultaneamente, de dissipador térmico para o crossover. Foi o maior salto tecnológico da longa história da série Diamond.
Na altura, ouvi melhorias reais: menos coloração, mais microdinâmica, maior estabilidade da imagem estereofónica e um decay mais natural. Recordo-me, contudo, de considerar a integração entre médios e agudos das 805 D3 e 804 D3 superior à das maiores 802 D3.
Foi um extraordinário exercício de engenharia, embora já não me recorde se o prazer musical aumentou na proporção exata de 868 alterações…
B&W 801 D4 e D5
D4 — Atacar Tudo o que Vibra
As D4 chegaram em 2021 e, com elas, a B&W recuperou a designação histórica 801 para o modelo de topo.
O Reverse Wrap foi alargado a toda a gama; a Matrix recebeu reforços metálicos adicionais; surgiu uma placa de alumínio no topo; e o corpo tubular do tweeter tornou-se muito mais comprido, aproximando-se dos 30 cm.
Talvez a inovação mais inteligente tenha sido a suspensão Biomimetic utilizada na unidade de médios Continuum: em vez da tradicional suspensão têxtil, utiliza uma estrutura plástica muito mais aberta, reduzindo a pressão do ar e a energia parasita no cone.
E não era apenas teoria. Medições publicadas pela Hi-Fi News revelaram uma redução da distorção da ordem de 6 a 8 dB em relação às 800 D3 e uma diminuição clara de componentes espúrias entre 5 e 9 kHz.
As D4 eram mais limpas, mais controladas e mais transparentes. Ainda assim, as 801 D4 continuavam a revelar, nos testes laboratoriais, algum excesso de energia entre 6 e 10 kHz — talvez o proverbial brilho do diamante...
B&W D5. Demonstração em Viena, com eletrónica Mark Levinosn.
D5 — Dá Cá Mais Cinco
E assim chegamos a Viena, em junho de 2026.
À primeira vista, seria fácil confundir as 801 D5 com as D4. A B&W não apresentou um novo material milagroso para os cones, nem trocou o diamante por qualquer substância da era espacial, muito menos iniciou outra revolução estética. Limitou-se a tratar de pormenores.
O novo Space Frame Bracing acrescenta calhas e travessas de alumínio à face traseira da Matrix. À frente, a Enhanced Matrix utiliza perfis espessos de alumínio em torno de cada altifalante para aumentar a rigidez. A placa superior é agora mais espessa, mais rígida e mais bem amortecida. E a nova base combina o amortecimento com massas sintonizadas, calculadas especificamente para cada modelo.
Das D4 Signature vieram também algumas lições: uma grelha de tweeter mais transparente, motores dos altifalantes com menor distorção nos médios e graves, melhores componentes no crossover, nova cablagem interna, ligações aos terminais melhoradas e uma placa integral em alumínio que suporta o crossover e reforça simultaneamente a estrutura.
E aqui reside o grande paradoxo das D5: as especificações fundamentais das 801 praticamente não mudaram.
Mantêm-se o tweeter Diamond Dome de 25 mm, a unidade de médios Continuum FST de 150 mm e os dois woofers Aerofoil de 250 mm; a sensibilidade continua nos 90 dB, a impedância nominal é de 8 ohms, com um mínimo de 3 ohms, a resposta em frequência vai dos 15 Hz aos 28 kHz, ±3 dB, e a potência de amplificação recomendada situa-se entre 50 e 1000 W sobre 8 Ω, com sinal sem clipping. As D5 pesam agora 106,4 kg, contra 100,6 kg das D4.
Ou seja: os números contam praticamente a mesma história. Mas a melhoria ouve-se — e muito.
B&W 801 D5 - Viena (2026)
Viena — Finalmente!
Na sala de demonstração, as 801 D5 estavam ligadas aos novos Mark Levinson, com um pré-amplificador No. 626 e dois amplificadores No. 632, tendo como fonte o monumental servidor/streamer Innuos Nazaré.
Foram, muito provavelmente, as melhores Bowers & Wilkins Série 800 que alguma vez ouvi.
A clareza microscópica continua lá. O grave desce às profundezas sem ter de pedir licença a um subwoofer, e continua presente aquela capacidade tão característica da B&W de projetar o som para a sala. Mas desapareceu a necessidade de estar permanentemente a exibir-se, como quem diz: «Olhem para mim! Vejam como sou boa!»…
A gama média soa mais suave, com mais corpo e textura. O agudo continua aberto e extremamente informativo, mas está mais bem integrado e chama menos a atenção. O grave tem ataque, definição e, sobretudo, pace & rhythm: não é apenas profundo; arranca e pára no tempo certo. Tenho a certeza de que não fui o único a reparar nesta mudança.
Como referi anteriormente, Laurence Dickie estava comigo e também notou, por certo, a maior coerência, suavidade e naturalidade, a par de menos grão e de menos agressividade no extremo agudo.
A apresentação incluiu quatro ou cinco faixas de diferentes géneros musicais, mas a única que consegui gravar foi ‘Hit or Miss’, de Odetta. Estou certo de que perceberão onde quero chegar, apesar de o som ter sido registado com um telemóvel.
A tecnologia ao serviço da música
Há uma lição a retirar desta longa saga.
De 2004 até à geração D4, inclusive, a Bowers & Wilkins apresentou soluções tecnologicamente brilhantes; mas mais tecnologia nem sempre resulta em mais e melhor música.
Com as D5, as 801 parecem finalmente ter atingido maturidade. Já não tenta impressionar com novos cones feitos de materiais extraterrestres; prefere eliminar pequenas fontes de ruído, distorção, vibração e energia acumulada, para que a caixa interfira cada vez menos nos altifalantes.
Acho curioso que a B&W, ao introduzir menos tecnologia revolucionária, tenha conseguido criar a geração 801 musicalmente mais convincente.
Não sei se os diamantes duram para sempre. Mas, finalmente, aprenderam a não brilhar mais do que a música. Dá cá mais 5D, B&W!
Nota importante: Hificlube.net vai visitar a fábrica da B&W, em 28 de setembro. Mantenha-se sintonizado para ler a reportagem de Pedro Henriques.
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