O MOON 371 é o primeiro modelo da nova Compass Collection, da Simaudio, mas ser um modelo de entrada não é desculpa, pois aponta para cima, para a North Collection, da qual herda a linguagem estética, a tecnologia e o rigor discreto característicos da alta fidelidade canadiana.
Já o vi anunciado como Network Player e como Streaming Amplifier. De facto, engloba ambos os conceitos; e muito mais, pois também é um excelente amplificador analógico integrado.
O 371 reúne, na mesma plataforma, amplificador integrado, pré-amplificador, streamer MiND 2, DAC, entrada de phono MM/MC, saída de pré-amplificação e saída de auscultadores, com impedância algo elevada (que deriva do amplificador principal). Basta juntar colunas e, claro, música. Foi o que eu fiz.
A potência anunciada é de 100 W por canal a 8 ohms e 200 W a 4 ohms, valores que as medições independentes de alguns dos meus ilustres colegas da EISA ultrapassam: 140 W a 8 ohms e 260 W a 4 ohms.
Sabemos que os watts não são tudo. Por exemplo, o 371 é um amplificador de Classe A/B diferente da concorrência, pois, em vez de recorrer ao modelo clássico de realimentação global, utiliza uma tecnologia própria, designada MDCA — MOON Distortion-Cancelling Amplifier —, concebida para reduzir a distorção por meio de um circuito exclusivo de correção de erro.
Poder híbrido
Por outro lado, utiliza uma fonte de alimentação MHP — MOON Hybrid Power — do tipo comutado. Portanto, sem o habitual toroidal das fontes lineares, mas com soluções de filtragem próximas às das fontes deste tipo. Daí o seu peso de apenas 9 kg, surpreendente para um amplificador com esta potência, apesar das dimensões de 42,9 x 8,7 x 38,5 cm, que o colocam na categoria de ‘slimline’. Mas basta olhar para identificar: É um ‘MOON’ inteiro.
O painel frontal aposta numa elegância funcional: grande ecrã a cores, roda de volume em alumínio que progride em passos de 1 dB entre 0 e 30 e de 0,5 dB entre 30 e 80, combinando rapidez e precisão, e a saída para auscultadores de 6,35 mm.
O design é limpo, com arestas arredondadas e sem aletas de dissipação afiadas e inestéticas, de inspiração medieval. Não há, aliás, um parafuso à vista, apenas no painel traseiro.
O ecrã não é tátil — o que pode enganar à primeira vista — mas mostra a capa do álbum, o volume (em números gigantes), a entrada selecionada e outras informações de reprodução.
O painel traseiro é que não tem nada de minimalista: oferece entradas analógicas RCA de linha, entradas balanceadas XLR, entrada phono RCA com terminal de massa, saída variável de pré-amplificação RCA, entrada S/PDIF coaxial, entrada ótica, HDMI ARC, duas portas Ethernet (!), Wi-Fi, Bluetooth, USB-C Host para leitura de ficheiros em armazenamento externo e uma porta USB-C de serviço.
Nota: O 371 não tem entrada USB-B/USB DAC para ligação direta ao computador, o que é uma pena. Nem toda a gente tem um bom sinal de rede. A porta USB-C Host serve, assim, apenas para discos ou pens USB, não para usar o MOON como DAC USB convencional.
‘Always on my MiND’
A aplicação MiND 2 é funcional, mas não traz nada de novo em relação às aplicações já existentes da Tidal Connect e Qobuz Connect. Muito menos à Roon com a qual é compatível. Achei-a pouco intuitiva. Mas pode utilizar o controlo remoto para as funções básicas.
MiND 2 dá acesso ao Qobuz, Tidal, Spotify, Deezer, rádio Internet, UPnP/DLNA, AirPlay, Bluetooth, Tidal Connect, Qobuz Connect, Spotify Connect, Roon Ready e Audirvana. A reprodução via rede/USB Host chega em PCM até 384 kHz e em DSD256; as entradas digitais físicas têm limites próprios: coaxial até 192 kHz, ótica até 96 kHz e HDMI ARC até 48 kHz.
Do digital ao analógico
A base do DAC é o chipset ESS ES9039Q2M, com implementação própria da Simaudio, com filtro fixo, relógio de baixo jitter e alimentação dedicada. O meu colega Paul Miller, da Hi-Fi News, mediu jitter digital inferior a 10 psec a 48 e 96 kHz. Isto é estado-da-arte.
O andar de phono é compatível com células MM e MC, com ganhos fixos de 40 dB e 60 dB. As cargas também são fixas: 47 kΩ/100 pF para MM e 1 kΩ/0 pF para MC. Não há ajustes finos de impedância, capacitância ou ganho, nem filtro subsónico (rumble filter).
‘Spinning doctors’
Normalmente, abstenho-me de me pronunciar sobre andares de Phono, pela simples razão de que já não tenho gira-discos. Embora admita que pode soar melhor, dependendo do sistema utilizado e do LP tocado.
Contudo, eu acho que o revivalismo vinilista tem muito mais a ver com a cena cultural woke atual e com o ambiente decorativo das séries de TV e das redes sociais do que com a qualidade do som. Na maioria dos lares modernos, o telefone é hoje a principal fonte de música — e o MOON 371 também está preparado para essa realidade. E bem.
E o som?
Controlo e integridade tonal. O que não admira, com um fator de amortecimento de 425, para mostrar às colunas quem manda.
Quanto à tão propalada clareza audiófila, ela apresenta-se com roupagens delicadas e quentes, quase valvuladas. E o brilho não é reproduzido com agressividade e grão, embora eu ache que isso depende muito da qualidade do tweeter das colunas.
A imagem não tem aquele foco laser de ‘tiro-na-testa’ que muitos procuram: a ‘sweet spot’ é mais ampla, pois o palco sonoro também é largo e profundo e a imagem é tridimensional, com muito relevo. Contudo, não espere uma dissecação anatómica dos sons; prepare-se, antes, para ouvir coerência orgânica.
A Case of You
Quando ouvi o 371 pela primeira vez, no HiFiShow do Estoril, na sala da Sound & Pixel com colunas DALI (ver vídeo abaixo), as condições estavam longe de ser as ideais. E, no entanto, mesmo ali, no meio do ruído inevitável, da agitação e das limitações acústicas de uma feira, percebi que estava perante algo de verdadeiramente especial.
Lembro-me de pensar: e por que não tocam antes A Case of You, por Diana Krall, para eu poder ouvir os versos de Joni Mitchell filtrados por aquela voz sombria de contralto, ao vivo em Paris, enquanto as notas do piano morrem devagar, num silêncio de confessionário?
Nessa gravação, quase se consegue ver, no escuro da sala, o público suspenso em transe coletivo, de olhos e ouvidos focados em Diana Krall, iluminada pelos holofotes, enquanto ela transforma uma simples canção numa oração ao Canadá, captada em close-up:
Oh (Canada), you're in my blood like holy wine
Oh, you taste so bitter and so sweet
I could drink a case of you
Agora que ouvi o MOON 371 em casa, apenas com um par de pequenas colunas Sonus faber Concertino, sinto por ele o mesmo que Diana Krall sente pelo Canadá. O 371 não me entrou apenas no sistema. Entrou-me no sangue — como vinho. E, mesmo assim, fiquei de pé. Ou melhor, colado à cadeira.
Está lá tudo:
A presença dela. A voz poderosa e rouca. A respiração sensual. Os lábios quase tocando no microfone. A saliva dentro da boca. O ar dentro do recinto. E talvez o mais difícil de reproduzir em qualquer sistema de som: o silêncio. Aquele silêncio fervilhante que emana de milhares de pessoas, sentadas no escuro, em admiração religiosa, já antecipando a erupção de aplausos no final.
MOON 371: grande máquina!
O MOON 371 deixa, então, de ser apenas um amplificador de streaming e torna-se algo de mais espantoso: uma máquina capaz de dar nova vida à música gravada.
O MOON 371 tem algumas limitações, que a Simaudio considerou irrelevantes, numa troca de impressões recente que tivemos via Zoom. Como, por exemplo, a ausência de USB DAC para computador (pode ligar-se por Wi-Fi); os ganhos e cargas fixos na entrada Phono (de acordo com medidas independentes, a curva RIIA é perfeita); e a não inclusão de DSP e correção de salas, que os verdadeiros audiófilos puristas de qualquer maneira já dispensam.
Não é, pois, um amplificador para quem quer afinar cada parâmetro digital, corrigir a sala com DSP ou ligar diretamente ao computador via USB. Também não é uma hub de cinema doméstico, apesar do HDMI ARC. É, antes de mais, um amplificador integrado para audiófilos exigentes que querem reduzir o sistema ao essencial, sem perder a ergonomia moderna.
O preço na Europa é de 6.800€. Porém, este valor até parece razoável, porque integra um amplificador A/B de 100/200 W, um streamer Roon Ready, um DAC a sério, um bom pré-amplificador de phono MM/MC, saída para auscultadores, HDMI ARC e construção canadiana com garantia de dez anos, que, segundo a Simaudio, também se aplica na Europa!
A Compass Collection começa bem. Muito bem mesmo. O nome significa bússola, mas o 371 não se limita a apontar o norte: em muitos sistemas, já é mesmo o destino final.
Produto: MOON 371 Network Player/Streaming Amplifier
Preço: 6.800€
Distribuidor: Sound & Pixel












