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Nagra Compact Player: A Arte de M. João Pires

Nagra Compact Player - Compact PSU - Compact VFS - CAPA.jpg

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Há aparelhos pequenos porque não têm substância. E depois há aparelhos pequenos porque concentram em si apenas o essencial, sem lhes roubar a alma: o Streamer e o Player da Nagra estão nesta categoria. E, por isso, ostentam o logótipo da marca, com o mesmo orgulho dos topos de gama.

Em janeiro, tive o prazer de analisar o ‘Streamer’ para o Hificlube, num artigo intitulado 'Nagra Streamer – Estilo Suíço'.

O Compact Player (6.500 €) nasce a partir desta experiência de sucesso do Nagra Streamer, no qual se substituem as saídas digitais por uma andar de conversão D/A integrada. À vista desarmada, o Streamer e o Player são iguais como duas gotas d'água. São ambos maquinados por CNC a partir de um bloco maciço de alumínio com dimensões de 18,5 × 16,6 × 4,1 cm.

Luxo discreto

Em ambos, o painel frontal exibe apenas o logótipo Nagra e um pequeno LED de cor âmbar. Nem um display, nem um botão. Nada. É um objeto de luxo discreto, uma caixinha de jóias, se preferir; ou um cofre-forte, dada a sua robustez.

Mas onde o Streamer só oferece conectividade digital, para ligação à rede e a um DAC externo; o Player é um streamer+DAC, que mantém a filosofia minimalista da Performance Series: Ethernet RJ45, porta USB para disco ou memória externa e saídas analógicas RCA. Não há Wi-Fi interno nem saídas digitais. Ao menos uma S/PDIF dava jeito para podermos utilizá-lo apenas como streamer.

O Player liga-se à rede por cabo Ethernet. Só. O controlo faz-se através do telemóvel ou tablet na mesma rede doméstica. Para alguns, essa austeridade será uma virtude. Para outros, será uma limitação, sobretudo para quem valoriza a flexibilidade.

O Streamer é aconselhado para quem já possui um DAC Nagra (via Nagra Link) ou outro de igual qualidade e pretende apenas adicionar a funcionalidade de streaming. O Player é mais autónomo, pois basta ligá-lo a um amplificador ou a um par de colunas ativas (RCA apenas).

O Streamer é para o audiófilo que gosta de trocar de DAC todos os anos, como quem troca de telefone; o Player é para um nagrista inveterado, mas sem capacidade financeira para comprar o Classic DAC II ou o Reference DAC HD, por exemplo.

Mas atenção: o Player não utiliza o módulo NADM do Classic DAC II e do Reference DAC. Em vez disso, a Nagra optou por um chipset ESS, em configuração dual-DAC, para manter o formato compacto (e o preço).

Em contrapartida, a integração com serviços atuais é extensa: Qobuz Connect, Tidal Connect, Spotify Connect, AirPlay 2, Roon Ready e Roon Tested,  Audirvāna, JPLAY Certified e vTuner. A reprodução local pode fazer-se por USB ou por UPnP/DLNA.

Tal como o Streamer, o Player não tem uma App de controlo, sendo aconselhada a aplicação mConnect Control, que é grátis e pode ser usada também para aceder a ficheiros locais e atualizar o software.

O manual da Nagra confirma que, via USB ou rede local, o aparelho reproduz em alta resolução até DSD256. Fui confirmar, e não é que é verdade!...

Mais: tocou também ficheiros DSD512 (com downsampling para DSD256). E ainda ficheiros PCM384 kHz /24 bit. Mas o LED nunca muda de cor, ao contrário de outros DACs em que o LED muda de cor consoante o formato ou a resolução do ficheiro.

O Player não tem um modo de volume fixo. O controlo de volume faz-se por software (na aplicação ou no Roon) e pode, por isso, alimentar diretamente colunas ativas ou um amplificador de potência.

Contudo, a própria Nagra diz que o Player soa melhor com o volume no máximo, pois foi concebido prioritariamente para trabalhar com um pré-amplificador associado ou com um amplificador integrado. Neste caso, deve ter o cuidado de regular o volume no pré-amplificador, não no DAC.

Eu testei o Player com e sem prévio, e não notei grande diferença, até porque aquilo que se perde com o controlo de volume digital ganha-se depois com menos componentes eletrónicos no caminho do sinal.

Do mesmo modo, não há uma diferença imediatamente óbvia entre o Nagra Player e o Bluesound Node Icon, por exemplo, que utiliza o mesmo chipset no DAC e é muito mais barato. Contudo, ela está lá. O que é preciso é aprender a procurá-la.

Busca Interior

Esta é uma busca quase interior, porque depende mais de si do que do desempenho dos aparelhos, pois não é a mesma coisa andar com um Swatch de plástico no pulso ou com um Rolex, embora ambos lhe deem as horas certas. O prazer de possuir algo de excecional também conta. E muito.

A melhor forma de perceber a diferença é instalar a Compact PSU (3.950 €) no sistema.

De repente, tudo se torna mais claro, mais definido, com mais silêncio entre as notas; o palco é mais amplo e generoso e a separação vocal melhora drasticamente.

Agora quando remover a PSU do sistema, já aprendeu a ouvir as diferenças e elas continuam lá, mesmo com o Player sozinho, embora em menor grau.

O Som do Piano

Recentemente, Maria João Pires concedeu uma entrevista muito interessante à revista Máxima, na qual afirma a certo passo:

‘Sim, a descoberta do som... Sou muito mais ligada ao som do que ao piano. O som no piano foi sempre uma luta: fazer o piano cantar, ter voz, não ser apenas percussão. Quero que conte histórias, que fale connosco. Hoje em dia, o piano é muito tocado pelo poder do volume, mas tem muitas outras capacidades — pode imitar muitos instrumentos, muitos sons. Isso exige esforço. Tocar uma nota não é só tocar uma nota: é procurar o som que queremos no contexto dela. E esse contexto, para mim, tem de servir uma ideia.’

Estou agora mesmo a ouvir as Sonatas para Piano de Mozart, de Maria João Pires, e com o Player (sobretudo quando ligado à Compact PSU).

O piano canta, tem voz, não é apenas percussão. Conta histórias. Não se reduz à evidência mecânica do martelo a percutir a corda, nem à imponência do ataque ou à nitidez do transitório. Há uma percepção mais completa do gesto musical: a nota nasce, ganha corpo, sustém-se por um instante no ar e extingue-se com uma naturalidade que preserva a intenção da pianista e do compositor.

Esta capacidade do Compact Player/PSU ‘dar voz’ aos instrumentos abrange todos os géneros musicais: a energia rítmica mantém-se, a assinatura tonal também, mas tudo parece integrar-se melhor no espaço.

Há uma diferença subtil, mas decisiva, entre um DAC que separa bem os sons (a tal destrinça tímbrica, de que falo muitas vezes) e outro que os organiza musicalmente no tempo e no espaço envolvente (a coerência temporal). O primeiro permite-nos ouvir os pormenores; o segundo mostra-nos as relações entre eles. O conjunto Compact Player/PSU está nesta categoria.

Com o Nagra Compact Player/PSU já não é possível descrever o grave apenas como sólido e firme, porque ganha relevo interno e as linhas de baixo respiram com maior liberdade e soam também mais limpas. O sistema restitui com mais precisão a escala do evento, permitindo aos sons coexistirem num contexto musical mais real.

O silêncio entre cada som é também mais convincente; os instrumentos soam mais focados sem resvalar para uma apresentação mecanizada, quase robótica.

O piano deixa de ser um instrumento mecânico e passa a ser a extensão da própria pianista.

Pequenos Sinais

Porque, ainda segundo Maria João Pires: ‘Pequenos sinais — como um acento — mudam completamente de significado de Haydn para Mozart ou Beethoven’.

Há sistemas (e componentes) que colocam o acento tónico na sílaba certa. Outros, não.

Se não percebe a relação temporal entre o peso de uma nota e a pausa que a precede, então nunca vai perceber a diferença entre um toque na tecla que afirma e um toque que apenas insinua.

O Nagra Compact Player é um aparelho que exige uma escolha firme de quem sabe muito bem o que quer – e não vai em modas.

Quem procura um streamer/DAC com múltiplas entradas e saídas digitais e balanceadas, Wi-Fi, Bluetooth e ecrã tátil encontrará alternativas bem mais completas e baratas no mercado.

Quem procura uma fonte digital compacta, discreta, de construção sólida e utilização fácil, com o pedigree sonoro da Nagra, só tem que ir ouvir o Player, com e sem a Compact PSU e a plataforma VSF, na Ajasom. Leve o livro de cheques!...

Nota: Já sei que alguns leitores vão achar que isto não é um teste de acordo com a ortodoxia audiófila, porque não refiro o equipamento associado que utilizei para o realizar, incluindo os cabos, fonte de polémicas sem fim; nem apresento uma listagem dos discos que ouvi. Uma autêntica heresia!

Mas, tal como acontece na apreciação de arte, eu, por vezes, prefiro olhar para o objeto artístico e deixar as emoções falarem.

Até porque o seu sistema será invariavelmente diferente do meu, assim como a música de que gosta e ouve — já para não falar da sala. Assim, basta-lhe pegar nas minhas modestas opiniões aqui expressas e enquadrá-las na sua própria realidade, mas agora à luz das suas emoções.

Nagra Compact Player: 6.500 €

Nagra Compact PSU: 3.950 €

Nagra Compact VSF (base): 1.495 €

Distribuidor: AJASOM

Nagra Compact Player Compact PSU Compact VFS CAPA


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